quinta-feira, 3 de julho de 2014

Eulírico

Eu humano conflito
Eu filho decepciono
Eu frequente ressono
Eu amor palpito

Eu coração anseio
Eu cético duvido
Eu desejo infinito
Eu violão ponteio

Eu métrica soneto
Eu palavra rebusco
Eu decisão esquivo

Eu errante discreto
Eu amante brusco
Eu poeta vivo.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Les Couleurs de Deuil

Tristes versos quintos
todos em menor
qual menor é o trilho
que a gota correu
em coches e seges
desde tons azuis
turvos e sem luz
sobre as peles beges
desse rosto teu
a cessar o brilho
dos olhos à cor
de um bom vinho tinto.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Tremeluz

Apaixonei-me nessa manhã.
Não que fosse o amor final,
o desfecho de minha vida.
Mesmo pois esse derradeiro,
bem conheço-me,
não existirá.
O que me fez cair de amores
hoje
foi a gentileza.

A chuva que me pegou - veja só
- de surpresa
foi a mesma que acendeu no peito de bela moça,
trajada em terno e ternura,
uma vela de cortesia.

Como quem se recorda do que lhe passou
há poucos instantes despercebido,
ela parou sob a água, de guarda-chuvas aberto
e coração também,
virou-se a mim e ofereceu:
vai pegar o ônibus? Vem comigo.

Sorri.

Balbuciei um aceite qualquer,
gratidão ainda bêbada de espanto.
Tomei-lhe a sombrinha em mãos
e caminhamos como casal contente
até a catraca da condução,
onde cessou-se nosso brevíssimo caso.

Ela, moça bela,
já dormia no desconforto da janela.
Mal sabia que, tal qual a chuva,
inundou-me de alegria
a sua atenção.
E que sua vela
agora tremeluzia
no meu coração.

Contudo, com tudo
isso,
a vida, conquanto,
ela segue.
Eu desço
e a moça
dorme.