segunda-feira, 21 de julho de 2014

O Paradeiro de Teresa

Onde estás, Teresa?
São menores as questões existenciais do homem
do que as vezes várias que me dediquei a procurar-te.

Vasculhei afundo meus pertences,
gastei meus sapatos nas calçadas,
fui repreendido ao revirar as estantes das livrarias,
folheando página a página os mais ternos romances e antologias
e em nenhum desses lugares notei vestígio teu.

Onde estás, Teresa?
Deixaste cá em mim crateras inteiras
que vulcão nenhum jorraria lava bastante para preenchê-las.
Dos fenômenos extremos da natureza
foste o mais devastador,
pois vieste em correnteza, arrasando meus alicerces.

Ainda tenho teu tempo em minhas horas.
Ainda sinto teu cheiro em meus dedos,
ainda sinto teus cabelos nas minhas mãos,
ainda sinto teu gosto na minha língua,
ainda sinto teu peso em minhas ancas.
Ainda sinto teu medo em meu perdão.
Só não sinto tua presença. Por onde andas, Teresa?

Lembra-te de mim, com quem reviveste as doçuras adolescentes
nesses tempos obscuros e responsáveis?
Com quem não planejaste o amor,
a quem confiaste, no entanto, o corpo, o verbo e o coração?
A quem chamaste por terceiro e deste tua delicada mão,
entrelaçando dedos e vísceras?
Cá estou, Teresa. E tu, onde estás?

Desintegro-me nas palavras que evocam tua comparência
e quase se esvai meu próprio juízo
(coisa única que me mantém rijo, pois já se foram as demais).
Vê tu que de nada me vale ser loquaz se não me ouves.
Prefiro vomitar as tripas de mal-estar a vomitar-lhe versos de mal-ser.
Assim vou enfraquecendo, afonizando, emudecendo.

Onde estás, Teresa, eu já sei.
Não me faltam mais cantos a olhar,
mundos a virar, memórias a recordar.
Nem dúvidas restam-me, sequer.
Por mais que tu persistisses,
o que me remanescia era acordar.
Não estás em lugar algum, Teresa,
pois já não mais existes.

7 comentários:

  1. Que inveja da Teresa

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    1. Não tenha. Seja um nome diferente.

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    2. Tenho muitos nomes, todos irrelevantes dentro das suas inconstâncias

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    3. Irrelevantes é uma palavra tão brusca...

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    4. A realidade é brusca.

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  2. A cada poema, o poeta escreve uma pequena autobiografia. E estas palavras foram ainda mais profundas do que geralmente.

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    1. Jogo-me ao versos, mesmo. Bom para a poesia! Mas será que é bom para o poeta?

      Muito obrigado!

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